O Sindicato dos Médicos da Zona Sul (SMZS - FNAM) manifesta a sua mais veemente oposição à forma como o governo e o Ministério da Saúde estão a impor o modelo das urgências regionais de obstetrícia.
A decisão de concentrar urgências num contexto em que existem grandes distâncias entre as várias unidades de saúde prejudica os interesses de médicos e utentes, colocando em causa a saúde de proximidade. É uma medida precipitada e lesiva dos direitos das grávidas e das suas famílias, agravando as dificuldades sentidas no Serviço Nacional de Saúde (SNS).
O anúncio feito pela Direção Executiva do SNS, nesta terça-feira, revela a descoordenação que impera no governo. Sem qualquer debate público, sem uma audição séria aos sindicatos, percebemos que o governo insiste em respostas que agravam a situação ao invés de a melhorar e resolver.
A previsão inicial da implementação das urgências regionais estava prevista para a Península de Setúbal com o encerramento das maternidades de Setúbal e do Barreiro e a concentração do serviço de urgência de obstetrícia em Almada, conduzindo ao encaminhamento para este hospital de todas as grávidas referenciadas anteriormente para a maternidade do Barreiro e Setúbal - incluindo as residentes no Litoral Alentejano.
Contudo, a primeira urgência regional a avançar já não será Almada mas Loures, com o encerramento da maternidade de Vila Franca de Xira. Esta medida traduz-se num aumento da distância que as grávidas vão ter de percorrer. A título de exemplo, uma grávida que resida no concelho de Benavente, cujo hospital de referência é o de Vila Franca de Xira, poderá ter de realizar uma viagem de 1 hora para chegar ao Hospital de Loures.
Outro dado a sublinhar é que apesar da maternidade de Loures, com esta medida, ter um acréscimo de serviço, a equipa só terá o reforço de um enfermeiro que irá de Vila Franca de Xira para Loures. É sabido que a maternidade em Loures já encerrou várias vezes por falta de médicos e desta forma ainda vai aumentar a carga de trabalho sem aumentar os recursos humanos, o que conduzirá a um previsível colapso.
O governo insiste na diminuição do acesso a um cuidado que é urgente e não pode esperar para apostar no incremento do risco de nascimentos fora de contexto adequado (o nascimento em ambulâncias ou estrada tem aumentado significativamente) sem condições de segurança, bem como na descontinuidade dos cuidados pré-parto, parto e pós-parto.
Este modelo arranca sem qualquer projeto-piloto avaliado e sem que se conheça o impacto real nas unidades que perdem a urgência. A garantia de que “80% das escalas” serão asseguradas por uma das equipas é uma justificação administrativa que não tranquiliza os profissionais de saúde, nem as utentes. A centralização não resolve a falta de médicos, apenas a redistribui, desguarnecendo uns hospitais em benefício de outros.
De assinalar que o governo prefere encerrar urgências do que criar condições para contratar médicos e prefere deixar o hospital de Vila Franca de Xira só com um obstetra com mais de 55 anos (que pode deixar de fazer urgências, por força da idade).
As medidas do governo não procuram eficiência. Procuram o desmantelamento da rede de proximidade e o normalizar da insuficiência.
O SMZS exige a suspensão imediata da entrada em funcionamento das urgências regionais e a aposta no reforço da carreira médica, por forma a fixar mais médicos no SNS. Não aceitamos que o SNS se transforme num arquipélago de ilhas de excelência cercadas por desertos de cuidados urgentes.
