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Todos os anos há gripe. Todos os anos há frio. Todos os anos há um excesso de mortos e de internamentos, de recurso a urgências e de falta de camas. Foi a gripe, dizem. E a gripe, de ano a ano, vai incorporando as culpas suas e alheias.

Sendo que a gripe é um factor de descompensação de muita doença crónica, também é certo que é das doenças que podem ser antecipadas no tempo, prevenidas e minoradas nos seus efeitos. O frio também pode ser minorado. O problema do frio, e espera-se que venha frio em todos os invernos, é semelhante ao do calor no Verão. População envelhecida e pobre, sem dinheiro suficiente para se aquecer, muitas vezes sem cuidador com disponibilidade suficiente. Mais que de gripe, morremos mais no Inverno e nos picos de calor por falta de apoio social, prevenção, e inventário da população em risco.

Continuaremos a morrer de pneumonia pós gripe. Nem tudo pode ser evitado. Mas um país que funciona não pode esconder responsabilidades atrás de eventos previsíveis.

Também a falta de camas não é sazonal. Agrava sazonalmente, mas é facto que, durante todo o ano, há macas nas urgências e nos corredores, por falta de camas para deitar doentes em condições de humanização e segurança.

Que o próximo Inverno não tenha de novo a gripe de todas as desculpas.

E que o próximo Verão não tenha o calor como justificação para toda a inoperância do sistema.